Carta Compromisso do GEPE

1 – Exigir condições adequadas de trabalho e remuneração bem como o cumprimento de acordos e pactos para o desenvolvimento e a constante melhoria destas condições.      Não adianta pensar em mudança se não descruzamos os braços. Há que se explodir em direção à pensamentos que possam subverter a injustiça das péssimas condições de trabalho e remuneração e, com esta lógica, desbravar e explorar os caminhos possíveis. Reivindicar e lutar negociando o melhor possível. Salário e carreira como fundamento básico apoiados na garantia de trabalho. Estrutura física do local de trabalho e elevação da qualidade. Os pisos e gramados devem ser acompanhados por permanente revisão e observação das questões concretas e estéticas, além de apresentarem-se como belas fotografias aos olhos dos usuários que diariamente vivem o esporte no interior das instalações, limpeza e manutenção são imprescindíveis. Tanto nos espaços escolares como em ambientes de treinamento especial são necessárias as garantias de infraestrutura para um desenvolvimento produtivo, eficaz e eficiente do esporte. Os profissionais da área devem ser valorizados no conjunto que informa todas as questões do trabalho: remuneração justa e pagamento em dia, incentivo e apoio, constante reorganização de projetos para incrementar a qualidade das atividades. Acordos e pactos com as instituições devem ser negociados e cumpridos conforme contrato coletivo.  Em tais acordos é importante destacar, definir e detalhar cláusula que contemple as condições adequadas de trabalho, os ajustes temporais na remuneração, bem como os adicionais de produtividade e um projeto específico de constante melhoria e investimento da infraestrutura, qualidade na prestação de serviço, reformas pontuais e reposição de material pedagógico. Limpeza e manutenção, bem como a reposição de material são áreas que implicam em gestão de recursos humanos específicos, isto é, trabalhadores que dominem o fazer prático do esporte, a montagem de redes, a calibragem de bolas, o controle de coletes, elásticos, cones, monitores cardíacos, higienização dos materiais e dos espaços. Não seria necessário escrever sobre a justiça do trabalho e as condições precárias de trabalho que muitos trabalhadores estão sujeitos e entre estes, muitos professores. A questão parece inócua, mas sublinhamos a necessidade de torna-la central. Antes de tudo é preciso, pois, resgatar a dignidade do trabalho com o esporte e seus agentes, as crianças, os professores, os treinadores, os esportistas e os atletas.

2 – Construir permanentemente um projeto pedagógico que fortaleça a autonomia dos envolvidos.

De forma individual ou coletiva a autonomia é um tema sensível para os professores que lidam com o esporte. Muitas vezes, não está claro o que se deseja (objetivo) se é algo simplesmente burocrático, se se trata de um desejo individual, coletivo ou se tudo está misturado. Quando a confusão está instalada a autonomia se perde, não há respeito mútuo e o trabalho pedagógico fica prejudicado. Para traçar um projeto minimamente confiável, é preciso romper com determinados traços burocráticos que limitam a autonomia dos sujeitos, como planilhas e garantias desnecessárias, assinaturas, carimbos, pareceres, prestação de contas recheada de detalhes supérfulos e protocolos que, acabam sendo engavetados ou mesmo desconsiderados.                                                      Quase toda autonomia é relativa, ou seja, implica em uma aceitação, às vezes tensa, às vezes obtida com formação de consenso mínimo. Garantida e incentivada por meio de formação permanente, a participação em oficinas, minicursos, congressos e eventos da área (nacional e internacional), debates, diálogos e tantas outras formas de atenção e comunicação devem engajar o alargamento da autonomia. No desenvolvimento de projetos e promoção de eventos, a autonomia é uma peça a ser testada constantemente.  Para a PE aplicar conteúdo e metodologia no treinamento de crianças e jovens sem que ocorram interferências diretas da hierarquia de governo é necessária a ampliação consciente da autonomia docente para que seja possível pensar em um desenvolvimento esportivo a médio e longo prazos. Isso não significa negar a centralidade do Estado, pelo contrário, implica em fomentar uma parceria inteligente entre docentes e pessoal técnico-administrativo.

3 – Esforçar-se e dedicar-se no dia-a-dia, de um lado, com a consciência clara das limitações e obstáculos impostos pelas instituições, de outro, com a prontidão para um trabalho rotineiro que acumule mudanças e avanços.

            No desenvolvimento do trabalho diário é preciso priorizar atividades qualitativas com um planejamento prévio que possa ser norteador e flexível, refletindo criticamente as práticas e propondo mudanças/inovações na metodologia de ensino. Transparência nos objetivos propostos e responsabilidade na condução das orientações e dos resultados obtidos são também necessários para não cair na alienação e espetacularização do esporte, e sim, na qualidade pedagógica das atividades de ensino e treinamento.  Destarte, a repetição de jogos e tarefas se faz necessária para o aperfeiçoamento técnico, aprimoramento tático, aprofundamento das relações sociais e da perspectiva do sujeito versátil. Este enquadramento depende portanto, da organização de espaços, equipamentos, materiais e gestão compartilhada.

4 - Compreender e explicar os diferentes processos de iniciação esportiva.

            A ideia da especialização precoce já foi amplamente criticada pela literatura progressista da PE. Quando o foco educacional é a corporeidade da criança ou do jovem, os sentidos da formação esportiva precisam ser direcionados para a vida e não apenas para alcançar resultados esportivos.  A cobrança excessiva e o imediatismo estão atrelados ao pragmatismo do treinamento retilíneo e oferecem baixa expectativa àqueles que, porventura, não forem aliados da ordem unidirecional do tecnicismo/tradicionalismo. Entretanto, cabe um reparo nas análises que desconsideram a autoridade do professor/treinador, pois, muitas vezes, a compreensão que se pode ter da literatura progressista é a da não importância da intervenção.                           Intervir com precisão e criatividade mais do que uma técnica necessária ao docente, é uma arte que qualifica a ação e promove a aprendizagem, orientando formas e processos que não seriam possíveis pelo caminho espontâneo, de descoberta aleatória do aluno. Aqui é determinante a escolha quantitativa do foco tático e técnico, ou seja, do quantum se destina à cada uma destas dimensões, ou seja, de quem vem primeiro e quem complementa o conteúdo. Alterar rotas, mesclar e criar aulas e treinos motivantes, com o traçado lógico do simples ao complexo.

5 – Apresentar práticas coerentes e possíveis observando o crescimento pessoal (esforço, responsabilidade e superação)

Realizar diagnósticos e esforçar-se continuamente na busca pelo êxito, sabendo das dificuldades e contradições que permeiam a prática profissional. Estabelecer coerência entre o discurso e a prática orientando-se por caminhos construídos coletivamente com os alunos e praticantes. Nesse sentido, um dos caminhos para o crescimento pessoal e emocional do esportista em formação, que luta para, talvez, se tornar atleta, dar-se-á na materialização e no engajamento de interconexões, ações e desenvolvimento de níveis de complexidade tática.

6 – Superar o imediatismo da formação aligeirada em curto prazo e da busca ansiosa e frenética por resultados. A Psicologia do Esporte já evidenciou que os benefícios da prática saudável na infância e adolescência são inúmeros. Ressaltamos que determinadas ênfases em resultados, não devem ser a regra do processo, antes, episódios esporádicos.  O trabalho de formação nas categorias de base ao condicionar os esportistas apenas nos resultados não se posiciona como um trabalho que almeja qualidade e, sim, com um processo de especialização esportiva precoce, na concepção da PE, um retrocesso teórico e metodológico.   Quando os alunos estiverem expostos à problemática da especialização esportiva precoce, é importante que o processo de treinamento seja filtrado e limpo pelos determinantes da PE, já socializados em publicações teóricas e práticas sobre o tema. Para deixar claro que a nossa intransigência com a especialização precoce, tem a ver com os modelos do binômio tecnicismo/tradicionalismo, expressamos algumas das mazelas comumente encontradas: medo de competir, concentração facilmente desviada em treinos, picos de agressividade, memória fraca, elevadas faltas e, posteriormente, desistência da atividade.

7 – Optar pelo pensamento amplo e complexo, simplificando-o para crianças e, reelaborando tal simplicidade, para a linguagem dos jovens.                                         A linguagem utilizada pelos professores e treinadores precisa se adequar ao universo auditivo dos aprendizes e isso significa, precisamente, que a comunicação deve ser objetiva. De um lado, não se pode ruminar, isto é, falar para dentro, em tom baixo, de outro, não é possível aceitar gritos; de um lado, falas arrumadas de acordo com o politicamente correto podem ser facilmente manipuladas, de outro, discursos fragilizados em gírias e vocabulário curto podem se tornar objeto de um ridículo coletivo dos alunos. Saber falar é uma costura pouco observada pelo professorado. No esporte, herdamos uma cultura que veio impregnada de uma suposta não necessidade de falar.  Na quadra, no campo, na sala de aula, a linguagem deve ocupar certa prioridade por parte daqueles que entendem ser necessário mudanças no padrão social e cultural de um povo. Jogadores de Futebol expressam tal pobreza reproduzindo jargões desgastados em entrevistas e programas de televisão. Embora este tema seja igualmente complexo, será dentro desta complexidade que defendemos (e continuamos defendendo) uma PE cheia de sentido. Entre outros determinantes, dominar a língua implica em preocupação constante na formação de esportistas.

8 – Abandonar as fragmentações do real e as falsidades dos discursos vazios e abstratos.

Promover o foco da concentração do aluno, ativando seu tempo máximo de permanência, bem como, a rigorosidade metodológica na proposta progressista de um treinamento esportivo que pretende ser verdadeiro e prático. Evitar as falsidades contidas nas ideologias e nas fragmentações das tendências pragmáticas, tecnicistas, tradicionais e aventureiras. Ao evitar tais falsidades, pensar sobre os avanços humanos no esporte, constatando que podemos humanizar as fragilidades dos homens por meio da ferramenta do jogo esportivo.   Posicionar-se criticamente contra os rótulos de treinamento existente dentro de uma educação de elevada qualidade, transformando a banalidade do determinismo em conhecimento esportivo e político. Dessa forma, criar possibilidades de uma PE que priorize o ápice do desenvolvimento da corporeidade daqueles que buscam formação.

9 – Romper com a dicotomia entre diretividade e não diretividade o que implica em conceber um novo patamar de totalidade para a ação pedagógica do esporte. As tendências pedagógicas, ao limpar os óculos de uma metodologia possível confirmam que polarizar diretividade X não diretividade contribui para falsear o fazer docente atribuindo à área, a incompetência de alguns. Assim como, não se trata de romper com a diretividade preenchendo o espaço com a não diretividade, o inverso também não é verdadeiro. Na prática da aula ou treino de esporte, convivem aspectos diretivos com não diretivos e isso auxilia o engajamento docente-discente na busca por conhecimento objetivo que possa ser compartilhado e aprofundado.                                                        Além disso, é importante reforçar que, as faixas etárias devem ser consideradas nesta avaliação. O ser flexível dos professores aliado ao planejamento, faz com que certo equilíbrio entre diretividade e não diretividade seja alcançado.

10 – Planejar aulas e treinos assumindo postura próativa e dinâmica, isto é falar e deixar falar nos momentos certos.                                                                           Conter a ansiedade, provocando e amarrando conhecimentos sempre elevados, quando possível, conectados à realidade corpórea e de movimentos expressivos. O clima subjetivo e coletivo do grupo depende muito das posturas próativas e dinâmicas do professor, daquilo que ele é capaz de perceber, fazer e transmitir. Não se pode confiar apenas no conteúdo e na necessidade de cumprimento dos objetivos. Jogos e tarefas quando oxigenados por uma perspectiva intencional que se preocupa com a quebra do estado neutro e, às vezes, desmotivador são mais produtivos que aqueles desprovidos destas engrenagens. Então, a postura pró-ativa com ênfase na fala e no apito, tanto em momentos de pausa como em momentos de atividade, não só é oportuna como necessária.